Gerry

março 20th, 2010

Gerry: Hey, Gerry, the path.

*

Gerry: I thought maybe you’d succumbed.
Gerry: I almost did succumb, but then I turbanned up, and I feel a lot better.

*

Gerry: I conquered Thebes.
Gerry: When?
Gerry: 4 months ago.

*

End credits

O segundo eu

março 16th, 2010

Estou cansado.

Não peça de mim coisas demais.

Estou cansado e

partes do meu corpo não se movem.

Meus olhos estão fixos,

observam o passar do céu,

como se ele passasse.

Todo o resto se vai

e, ainda assim, acima de mim

continuam as coisas que vi

há anos atrás,

e que não descerão de lá

jamais.

Estou cansado.

O peso de tudo o que há

é maior sobre os meus ombros

que o peso do mundo

sobre o vácuo e o nada

que o circunda.

Estou cansado

e repousar já não posso mais.

O silêncio

março 15th, 2010

De todas as maneiras encontradas pelos homens para se fazerem felizes a que melhor funciona comigo é a não encontrada, aquela que, na verdade, vem de encontro a nós. Durante todo esse tempo preocupei-me excessivamente com o que havia dito, com os que haviam me ouvido, com o que pensavam esses e todos os demais a meu respeito, e com aquilo em que o pensar deles todos me transformava diante dos olhos meus e não meus. Aí me esqueci de viver.  E então  foi que não percebi que falar sem viver, calar sem saber, e viver sem calar e saber e falar, e todas essas coisas, são apenas estados intermitentes entre uma boca fechada e aberta, um semicerrar de lábios, um levantar inadvertido de covinhas ao lado da boca e o arreganhar de dentes que isso pressupõe. E deu-se disso tudo, dessa inconclusão e inaudibilidade de sons, fonemas, palavras esparsas, que jamais pude contar a ninguém que não o tenha ouvido, nem a quem não tenha sido previamente contado (mas não por mim), o que, naquele dia e hora, recordei ter sido dito antes, e com a minha própria voz eu disse: o silêncio.

Isso é um recorte de um conto, que tou guardando para a posteridade. O conto não existe mais, foi desmembrado em partes, já que o achava irrisório. Esse era meu trecho preferido dele.

Corra

março 14th, 2010

E muito cedo eu já estava lá,

os punhos cerrados e o cenho

franzido como careta de menino.

Eu era um menino,

mas quem nunca foi?

E então, quando tudo começou,

quando correr era incipiente e

desistir insapiente,

me dei conta de que eu,

assim como todos os outros,

mal sabíamos da fatalidade

do destino que nos aguardava,

e que corríamos mal demais

para quem realmente queria

chegar a algum lugar.

Passos mais fortes, vento

zumbindo ouvido afora,

isso tudo sentíamos

enquanto corríamos,

andando para trás.

E o que se ignorava

diferença alguma fazia,

assim como também não faz

as coisas que não sabemos

ignorar.

Só que, sem que notássemos,

dentro em pouco havíamos

denotado o caminho

e tomado um rumo qualquer,

diferente do que deveríamos.

É que ainda corríamos errado,

é que não nos sabíamos guiar,

e quanto mais pensávamos ir,

mais estávamos a voltar.

Quando chegamos,

tempo demais depois de partirmos,

o ponto de chegada

não mais importava.

Porque não há nada que seja

maior que o caminho,

nem o fim, nem o destino,

muito embora, devemos confessar,

estivéssemos aliviados por pararmos,

por não termos mais que correr.

Mas isso tudo é um incômodo

cômodo estado

de espírito

em que metemos nossos nós que correm.

Devemos parar um dia,

e paramos ali,

mas eu prossegui,

voltei a correr sem cansar,

buscando o rumo do que queria,

indo até onde pudesse chegar.

E foi então que entendi

que eu já estava lá.

Ad hoc

março 13th, 2010

As almas ardem em fogo,

um brilho impossível

de verdades desiguais,

que as consome

e risca

e penetra

até seu fim,

o núcleo final,

a verdade única

que se lhe é possível,

o poder máximo

do espírito,

a parte dura do ser:

tudo ter,

nada saber.

Sextil

março 12th, 2010

Queria ter a vida de alguns dos meus amigos, e uma vida com amigos a mais. Poder contar contos quaisquer a quem os quisesse ouvir. Não calar. Deixar de sussurrar, quando é gritar que quero, essas coisas todas que dizemos a nós de tal maneira que não é para ouvirmos, mas que os outros que nos importam e que se importam conosco ouvem. E, ouvindo, sabem dizer eles próprios quem somos (e quem deixamos de ser).

Se a vida fosse escolhas, e não apenas destinos tranvestidos de decisões, eu mesmo seria quem escolheria essas vidas de amigos que quero ter e os amigos que quero a mais, e dentre eles é fácil saber que você estaria. Não porque te chamaria para perto, mas porque, antes que eu dissesse algo, você já teria ouvido e viria ver o que era.

Não há nesse mundo coisa melhor que eu possa fazer por alguém que escrever pra ele(a). É o meu jeito de dizer que me importo, mesmo quando o importante parece ter deixado de fazer diferença. Feliz aniversário, Lilian :)

É melhor o fogo

março 10th, 2010

“Acerte o Sol mirando a Lua”, meu pai costumava me dizer. “Com a força que você tem, tudo o que lançar em direção a ela vai demorar centenas de milhares de anos para não atingi-la, porque ela não estará mais lá. Mas é provável, é bem provável, se você mirar direito, que o que jogar em direção ao Céu atingirá o Sol, que se esconde atrás da Lua e não sai do seu lugar.” “Uau!”, eu respondia. E então não era preciso meu pai dizer mais nada.

O que eu poderia jogar em direção ao Sol não joguei nunca. Eu não acreditava mais no meu pai quando fiz oito anos, e isso tornou ainda mais longa a distância até o Sol. E maior a força necessária para fazer algo viajar até lá.  E aos oito anos é provável que todos, como aconteceu comigo, percam a esperança de fazer algo grande um dia, porque dão um jeito de tirá-la de nós. O mundo e as possibilidades que havia além da órbita da Terra se fecharam para mim entre um soco e outro nos intervalos da aula, entre a primeira e última crise histérica de minha mãe, religiosamente presentes em todos os dias, e a cada ausência semanal do meu pai. Ele viajou mais aos meus oito anos que meus próprios pensamentos. Ou talvez não. Há uma chance de que eles o tenham acompanhado sempre, e ele os tenha perdido em algum lugar, aí não conseguiram voltar.

Hoje eu não sou tão mais velho do que era naquela época, mas sou mais esperto. Aprendi que a distância até o Sol é longa até mesmo para a luz, o que já me levou a pensar que, quem sabe, no escuro os milhões de quilômetros se encurtam, e que é por isso que à noite vemos as estrelas, e ao dia não, porque elas ficam mais próximas da Terra. Já cheguei a acreditar que havia uma chance de meu pai não estar errado, que os milhões de quilômetros se transformariam em milhares de centímetros nas doze horas mais escuras do dia, e que esticando um galho muito longo eu poderia tocar o Sol. E assar marshmallows nele. E talvez morrer incendiado. A gente se incendeia ou só se queima?

Uma vez me queimei de febre e fiquei de cama por três dias. Outra vez queimei uma das mãos em um ferro quente. Nunca me incendiei, mas todas as vezes em que estive queimado não pude brincar. Um dia, na escola, fui queimado na queimada. Eu era muito ruim. Nunca mais me escolheram pra jogar. Acho que há uma relação entre fogo e felicidade: quanto mais chamuscados estamos, mais infelizes ficamos. Não consigo entender como algo como o Sol queima a si mesmo. Quando eu era menor, uma das coisas que queria atirar nele era um balde d’água, pra ver se o apagava. Meu pai dizia que a água iria evaporar-se quando chegasse perto, e lembro que na época fiz uma experiência que provava que ele estava errado. Peguei uma brasa do tamanho do Sol e mergulhei-a na água. Não evaporou muita coisa. Só mais tarde fui entender que o Sol era maior que a brasa, era maior que o mundo, mas tive medo de juntar brasas do seu tamanho e incendiar a Terra. Porque a Terra, ao contrário dos homens, se incendeia.

Desisti de apagar fogos tão distantes e me concentrei nos que assolavam as florestas. Depois me desinteressei desses também, e só fogos de artifício despertavam minha curiosidade. Disparei alguns secretamente, porque minha mãe havia me proibido de brincar com essas coisas. Tinha medo deles. Tinha medo do que era proibido, medo e admiração. Nunca me proibiram algo que depois eu não tenha feito. Acho que só proibem coisas que não podemos evitar fazer, para depois termos que confessar nossos pecados e nos arrependermos e nos emendarmos. Seja lá o que “emendar-se” quiser dizer. Eu nunca estive quebrado.

De um modo ou de outro, o tempo passou sem que eu tivesse certeza de nada. Olhando para trás vejo que não havia muito a saber, e isso não faz diferença. Ninguém nunca sabe de nada. Meu pai era um mentiroso. Um menino da minha sala fingia saber fazer mágica. Uma garota uma vez disse que gostava de mim. Um cachorro me mordeu. Melhores amigos do homem uma ova! Ninguém nunca sabe de nada! Eu, no entanto, sabia de tudo. Mas disse também que não tinha nenhuma certeza. É verdade. Eu sabia o que não existia e o que era real, quem me amava, quem roubaria meu lanche no recreio, minha cor favorita, que eu não gostava de futebol. Eu sabia, mas tinha certeza? Certamente não. Meus pais – Bruno, o menino da série acima da minha – azul – não suportava nem mesmo a Copa. Mas sempre achei que minha mãe me amava menos, que Bruno só queria ser meu amigo, que branco era, na verdade, mais bonito, e que futebol só podia ser bom, já que todos gostavam. A questão é que nunca temos certeza alguma se nos acertamos segundo os outros.

Se somos todos infelizes eu também não sei. Se sou infeliz não quero saber. É muito cedo. Esse tipo de coisa não deve nos preocupar antes de morrermos, e só pode preocupar-nos depois porque aí já não importa mais. Se sabemos se somos felizes ou não cedo demais nos damos conta de se estamos ou não em chamas. Se somos umas espécie de Sol, ou algo assim. Não quero saber, porque toda vez que me molhasse teria medo de me apagar. Talvez, se fogo for mesmo igual a tristeza, isso seria até bom. Mas até quando? Se o Sol se apagasse, por exemplo, se eu tivesse conseguido jogar água nele, tudo seria escuro, tudo estaria ainda menos distante de tudo, e eu estaria mais próximo de quem não quero estar. É melhor o fogo, que conforta e machuca e ilumina, que faz molhar a cama onde dormimos se brincamos com ele. É melhor o fogo.

Mas as coisas são sempre como acertar o Sol mirando a Lua: vamos ainda mais longe quando não queremos ir, nos apagamos tentando acender-nos e nos acendemos quando estamos apagados. Bem, o que eu queria dizer mesmo era que meu pai estava muito errado, e que cresci acreditando em inacreditáveis, que ainda me assombram. Mas talvez – talvez… – ele estivesse certo. Quem sabe nunca acertamos a Lua porque ela sempre abre passagem para tudo seguir o seu caminho, porque não quer ser alcançada, ou porque não precisa ser? Ou talvez meu pai só tenha errado os cálculos, os quilômetros, o tempo, a velocidade, e nenhum astro seja realmente alcançável por nós. Quem vai saber?

Não sei dizer ao certo, e, como não sei, não digo. Mas um dia também terei um filho e irei falar algo a ele. Não há como prever o que falarei à época, mas se essa época fosse hoje seria “Se incendeie”. Quando perguntasse por que eu responderia: “Se você está em chamas é porque tem algo a queimar”. Me parece bom. Não é preciso atingir Sol algum, nem fazer esssas grandes coisas que parecem ao mesmo tempo tão fáceis e difíceis quando somos pequenos. Nunca, eu sei, fazemos nada melhor que aquilo que fazemos a nós mesmos, e até isso já é muito ruim. Precisamos é organizar (ou não…) o caos dentro de nós para queimarmos todo ele, assim como queimam a si mesmas as estrelas. Algo como finalmente nos acertarmos enquanto miramos a parte escura que há em nós, e que devemos incendiar. Porque é melhor o fogo.

Coisas que me lembram você

março 8th, 2010

Uma ponta de dúvida,

uma ponta de lápis,

uma queda, um vôo,

uns pássaros a mais,

um filme que não desce

tão suave quanto o suco

de graviola que seu pai faz.

Ou será que entendi errado?

Uma saudade de ter

o que ainda não tenho,

nem posso te dar.

Uma pressa sem rumo,

um rumo sem pressa,

uma preguiça na rede,

um sol que estremece

as sombras que tínhamos

nos eus que nós éramos

quando “nós” não era nada.

Um sorriso, um sussurro,

um toque, uma certeza.

A certeza de que há

clareza nesses olhos que uso

para enxergar quem sou

bem dentro dos seus.

Uma conversa na noite

março 8th, 2010

Deus é o narrador. Única informação necessária.

Andava acabrunhado e nada parecia poder me divertir. Se antes viagens e jogos bastavam, agora nem mesmo serviam para me tirar do estado nauseabundo de marasmo e inquietude de corpo (que de modo algum significava inquietude de alma) em que vivia.

Por um longo tempo deixei-me ficar quieto e imóvel entre anéis de gelo que rodeavam planetas distantes dos pedaços conhecidos do Universo, aqueles próximos de onde há vida. Se fosse possível falar disso, diria que a idade havia se abatido sobre mim, me derrubado e largado esquecido onde não saberiam nunca que eu estava. Me cansara de tudo o que há e, por isso mesmo, evitava outras formas e espíritos, que só carregam consigo mais cansaço, embora  neles ele sempre estivesse contido e concentrado em partes bastantes específicas de seus corpos: as pernas e braços, em quem tem carne, e no mais exterior dos espíritos, em quem não a tem.

Cheguei à conclusão de que a época em que tudo seria um fardo insuportável de se carregar havia chegado, ao menos para mim, mesmo não conseguindo explicar como ela poderia me atingir. Mas o fato que quero narrar não é o da minha imobilidade, mas o do meu retorno para perto de onde pulsa a existência e acontecem os ocorridos. Pois, estando o planeta em cujos anéis eu descasava alinhando-se com a Terra mortal, me sobreveio a vontade de voltar os olhos a ela, e assim fiz. Eles pousaram sobre um povoado, onde já era noite.

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Just disarming

fevereiro 28th, 2010

Eu poderia fazer direito as coisas, quero dizer, tratar de tudo como se espera que seja tratado (normalmente, como os outros homens fazem), mas não é assim que ajo. De maneiras diferentes… A gente prossegue melhor quando somos nós mesmos, quando mostramos o que não esperam que mostremos. Surpresas.

Ela foi uma mudança de humor, daquelas bem repentinas, chegada em uma tarde de verão com cara de primavera, ou o contrário. Tudo o que mudou foi o que ela trouxe consigo. Ela me acompanhava, ela me sorria, eu sorria, nós sorríamos, ela para mim, eu para ela. Infinito. O ócio não era para nós, não 24 horas vezes sete dias por semana, caso contrário viveríamos para sempre no escuro de um não-acontecimento (também) infinito. Pelo contrário, havia a ação: chovia constantemente em nossa vida à dois, o que molhava não só nossos corpos e o tempo que passávamos juntos, como também nossos abraços, saias (as dela; não as uso), meias coloridas (essas são minhas também) e o resto. Mas não era tempestade, nem tampouco garoa. O que não consigo entender é a associação que fazem entre chuva, melancolia — também desespero — e catástrofe. Isso não existe, exceto se você não souber direito como se molhar.

Na primavera-verão chuvosa nós continuamente nos recostávamos contra lareiras para nos secarmos, esperando que o calor também desanuviasse os dias molhados, frios, nublados, que antes havia (e agora finalmente sumiam de) dentro de nós. Nesse ínterim de aquecer-se-e-molhar-se encontrávamos tempo para contar segredos um ao outro, que soavam como música para nossos interiores cambiantemente desconfiados. Nem mesmo um espelho permitiria que nos víssemos tão por inteiro como éramos capazes de nos enxergar um no outro. E assim era porque não havia nada entre nós que não fosse mútuo, nem mesmo aquilo que não partilhávamos. É que os segredos que evitávamos contar são, constitucionalmente, o que nos faz querer saber mais do outro.

Constitucionalmente e esteticamente, é claro. Há um certo charme nos mistérios, apesar de eles serem como programas de índio em que nos metemos sem querer, dos quais não conseguimos sair e sem os quais, bem, não saberíamos viver. O programa pode ser ruim, mas ainda assim existe. Como pão de queijo recheado com tomate seco caseiro. Quer coisa pior no mundo? Mas, por mais ruim que eu ache isso ser, seria ainda pior se eu não pudesse achar. As coisas ganham contornos de coisas porque têm liberdade para tê-los. García Márquez uma vez me disse diretamente (por intermédio de um livro) que: “A vida não é mais do que uma contínua sucessão de oportunidades para sobreviver”. Ele estava certo.

E sobreviver é, irrevogavelmente, dentre outras coisas sentar-se numa praça e deixar-se abater por pequenos prazeres, mas pequenos mesmo, aqueles que nos sobrevêm sem motivo algum, inflando nossos corpos e nos fazendo sentir bem. Chá gelado. Café. Lápis de cor. São os meus, quais os seus? Os dela eram viagens, colheitas lunares (levaria muito tempo para explicar o que é), brechós, dormir em redes (comigo, de quando em vez), e mais. Tudo isso aquece mais que lareiras, e nos faz sentir melhor do que realmente somos, embora essa medida de quem somos seja algo surrealmente inexato e empiricamente mentiroso. É só pensar em canecas se quebrando que dá para ter idéia do que estou falando: os cacos que restam no chão, apesar de serem todos a caneca, não têm mais importância alguma para nós. Ser é se manter, mais do que realmente estar.

Apesar de meu humor ter melhorado por causa dela, ainda guardo em mim resquícios de dias passados, ecos dos Smashing Pumpkins e sua Where boys fear to tread tocando, rompendo meus sonhos, como só boa literatura (isso inclui você, Saramago), más mulheres e rinites alérgicas conseguem fazer. Passado, eu sei, que não revisito, mas que é um quesito constante na minha vida. Sempre me questionam: quem você era? A resposta mais certa seria algo como “0.5mm de papel rabiscado com minha própria letra, e própria tinta”, afinal, é de palavras que sempre me fiz. Mas a resposta que esperam de mim é a que tenha o efeito incômodo de 0.66mm perfurando o nostril (ou de uma boa dose de Differin, quando necessário), de uma carta de amor apaziguante ou a de uma pizza de pepperoni servida em um canto qualquer da cidade (recomendo muito fortemente qualquer pizzaria na região da Savassi, onde Belo Horizonte respira). Não sei ser assim, mas vive em mim a vontade de tentar.

Na falta desse efeito-pepperoni, me torno algo entre bom sorvete e sessão ruim de cinema: insuficientemente completo, sem ser completamente insuficiente, sem me tornar o que ela espera (talvez não mais) que eu fatidicamente me torne. Minha constância é de se admirar. Chutes circulares não são capazes de me derrubar, nem mesmo qualquer som que venha de um Amarante ou Morrissey (já de Smashing, sempre sim). É que, depois de muito estudar e por vezes e vezes reprovar, aprendi quem sou, sei quem não sou e evito ser quem querem que eu seja. Nisso, me tornei verdadeiro. É o único caminho que conheço que leva da total anomia até a verdade sobre si mesmo. Tomá-lo foi mais difícil que aprender a dançar qualquer coisa (tango, samba, flamenco), e olhe que tenho sérios problemas com danças, mas foi também melhor, a mesma sensação que se tem quando se chega ao topo de um monte verde, esperando ver o pôr-do-sol, e já é noite. A Lua compensa a viagem.

Imaginariamente eu poderia dizer que o fato de eu ser um homem melhor foi apenas devido a ela, mas não foi. É todo um processo histórico, diria Marx. Ela apenas coroou o momento, chegou em uma época muito estranha da minha vida e consertou as coisas. Trouxe consigo seu cheiro (que tem número, 212, e seu próprio acorde), mais músicas para mim, kickboxing (já me ameaçaram um dia; acho que cumprir a ameaça nunca irão precisar), mais masmorras e mais dragões. É disso que é feita a vida, a minha e a dela, ao menos, porque é disso que gostamos, é o que amamos em nós, e sempre queremos mais (amar, isso e nós). Se procurássemos bem fundo em nossas almas encontraríamos exatamente a mesma coisa: vontade de fazer o momento durar para sempre, tal qual fotos, para que não precisássemos sair dele jamais.

(É que os momentos em que estamos juntos fazem valer todos os outros.)

Em resumo, não acredito ser engano nem metáfora exagerada alguma dizer que a chuva que se abatia sobre nós não era feita de gotas, mas de papéis picados (ou origamis bem trabalhados); que os montes que subimos foram aterrados em pelúcia; que só vemos Lua no céu quando nossas lentes escapam dos olhos, e que o que há lá de verdade é um espaço vazio, sem estrelas, sem sóis, sem satélites: é amplitude, é possibilidade, é um canto onde podemos construir o que queremos. Quero no nosso céu um busto de Tolkien… ou melhor, de Guimarães Rosa, a flutuar — falante, de preferência, para que nos lembre sempre que “Esperar é reconhecer-se incompleto”. Para logo depois eu o completar-lhe a frase, dizendo: “Não, eu não espero mais”.

Se saudade for mesmo ser depois de ter, temo que acabei tendo, e depois sendo, e agora posso prosseguir em paz. Porque finalmente existo.

De resto, basta lustrar o corpo, estar de unhas feitas (nós dois), brincos colocados (um só),  estar de desjejum — morango com laranja, café californiano e coisas mais — tomado (ambos) e caneta e papel na mão (um de nós), para que possamos prosseguir nossa viagem juntos. No caso de não estarmos no mesmo lugar todas as vezes, sempre nos permearão as mensagens enviadas de lá pra cá, e cá pra lá; ou, na dúvida do que escrever, há ainda a chance de tomarmos uma condução sobre rodas (2104; agora sei onde é que se pega algo assim) que nos empurre um em direção ao outro. De um modo ou de outro sempre sabemos nos encontrar.

Sempre.

E assim vai terminando a primavera e entrando o verão, trazendo consigo dias laranjas, árvores desfolhadas, calor táctil, como se Deus (ou Richard Dawkins) ligasse uma versão macro-existencial de Corel X4 e brincasse de mudar o que é o mundo. Por favor, o que quer que faça, Deus, deixe intactos o orgulho de quem é esquisito (e as coisas das quais eles gostam), meu vizinho, Totoro, tudo o que vier da Alemanha (exceto coisas de 1928 à 1945; dê preferência aos pubs), livrarias e culturas, e a finlandesa-não-japonesa Nokia. Não sei exatamente por que, mas faça. Apenas faça.

Enquanto isso, daqui continuarei observando. Daqui continuarei crendo. Daqui continuo sendo (o que ela deve ter e eu sei ser, sendo dela).

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(Lista via justdisarming.blogspot.com)

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